<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Arquivo de Diário de Criação - Luciany Aparecida</title>
	<atom:link href="https://lucianyaparecida.com.br/category/diario-dr-criacao/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://lucianyaparecida.com.br/category/diario-dr-criacao/</link>
	<description></description>
	<lastBuildDate>Wed, 15 Oct 2025 10:35:53 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=7.0</generator>

<image>
	<url>https://lucianyaparecida.com.br/wp-content/uploads/2025/10/cropped-favicon-32x32.png</url>
	<title>Arquivo de Diário de Criação - Luciany Aparecida</title>
	<link>https://lucianyaparecida.com.br/category/diario-dr-criacao/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>Criar nomes, performance contra-colonial</title>
		<link>https://lucianyaparecida.com.br/2025/10/06/criar-nomes-performance-contra-colonial/</link>
					<comments>https://lucianyaparecida.com.br/2025/10/06/criar-nomes-performance-contra-colonial/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciany Aparecida]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Oct 2025 16:24:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diário de Criação]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://luciany.bemd.com.br/?p=302</guid>

					<description><![CDATA[<p>Sou a escritora Luciany Aparecida, sem deixar de&#160;ser Ruth Ducaso, Antônio Peixôtro e Margô Paraíso,&#160;assinaturas estéticas que criei como se quisesse&#160;segurar com firmeza alguma coisa, talvez minha&#160;própria vida. Gloria Anzaldúa, em Hablar en lenguas,&#160;diz que ao escrever ela coloca ordem no mundo,&#160;“le doy una agarradera para apoderarme de él”.&#160;Talvez eu desejasse me ordenar por entre [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://lucianyaparecida.com.br/2025/10/06/criar-nomes-performance-contra-colonial/">Criar nomes, performance contra-colonial</a> apareceu primeiro em <a href="https://lucianyaparecida.com.br">Luciany Aparecida</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Sou a escritora Luciany Aparecida, sem deixar de&nbsp;ser Ruth Ducaso, Antônio Peixôtro e Margô Paraíso,&nbsp;assinaturas estéticas que criei como se quisesse&nbsp;segurar com firmeza alguma coisa, talvez minha&nbsp;própria vida. Gloria Anzaldúa, em <em>Hablar en lenguas</em>,&nbsp;diz que ao escrever ela coloca ordem no mundo,&nbsp;“le doy una agarradera para apoderarme de él”.&nbsp;Talvez eu desejasse me ordenar por entre os valões&nbsp;do tentar sobreviver e tenha sido essa performance&nbsp;da escrita uma via de acesso a mundos possíveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Corriqueiramente, as pessoas me perguntam se&nbsp;criei esses nomes como o escritor português Fernando Pessoa criava heterônimos. E respondo que não,&nbsp;que minha ordem de criação não faz referência aos&nbsp;heterônimos de Pessoa. Mas, sim, que escrevo me&nbsp;relacionando com uma história de mulheres americanas que criaram nomes para comporem espaços&nbsp;de fuga em ambientes de opressão. Como fez, por&nbsp;exemplo, bell hooks, que criou seu nome inspirado&nbsp;no nome de sua bisavó materna e o definiu como&nbsp;uma plataforma de usos teóricos para refletir sobre&nbsp;intelectualidades, transgressão e liberdade. Inspirada&nbsp;nessa história criei Ruth Ducaso, em referência ao&nbsp;nome de minha avó materna, Ruth, e defino essa&nbsp;ação como uma criação teatral contra-colonial.<strong>[nota1]</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Para realizar essa definição é preciso retomar&nbsp;o ato da nomeação como uma cena do teatro da&nbsp;crueldade colonial (o nome com ferro na pele&nbsp;marcando a posse da “peça” escravizada) e, consequentemente, o nome (a reinvenção) também&nbsp;existindo (no mesmo contexto social) como uma&nbsp;ferramenta de luta. E estou falando teatro, não apenas no contexto da teoria da representação e&nbsp;mimese. Mas da realização (repetitiva) de uma ação&nbsp;de crueldade para manutenção de lugares de poder.&nbsp;“Nomear é dominar”, escreveu Leda Maria Martins&nbsp;no livro <em>A cena em sombras</em>. Essa ação de crueldade&nbsp;pode ser a reprodução de um discurso. Mas esse&nbsp;discurso não repousa na cama da imitação de uma&nbsp;realidade. Ele instaurou realidades, matou, oprimiu&nbsp;e feriu com ferro a pele de mulheres (ancestrais)&nbsp;indígenas, africanas e afro-americanas, que agora&nbsp;nós, mulheres desse tempo contemporâneo (pós-colonial), desejamos referenciar numa devoluta&nbsp;de chave de criação teatral contra-colonial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, crio as assinaturas como um ato de revolta&nbsp;e não como um heterônimo marcador de tradição&nbsp;pessoana. Porque Fernando Pessoa pode se colocar&nbsp;como um deus e/ou mesmo como um ateu ao inventar seus heterônimos e isso não soa na cultura literária europeia como um estado e/ou uma produção&nbsp;de violência. Porque deus é um homem, branco, que&nbsp;se posiciona num lugar de centro do mundo. Como&nbsp;está no teatro da representação colonial (mundo&nbsp;das Américas) o homem branco Fernando Pessoa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De outro modo, eu, como uma mulher afro-americana, ao inventar nomes, heterônimos, não&nbsp;elaboro um trabalho de criatividade literária apenas, pois não é permitido a mim, nesse contexto&nbsp;rançoso das violências coloniais (digo: patriarcalismo, machismo, racismo e LGBTQIAP+fobias),&nbsp;não é permitido a mim ser apenas criativa. Eu&nbsp;sempre tenho que ser criativa e algo mais. E esse&nbsp;algo mais, essa força de pulsão de entrada e/ou&nbsp;de saída das chaves semânticas de leitura que, no&nbsp;contexto patriarcal e racista, já existe sobre o que&nbsp;eu posso e/ou não posso recortar como criatividade&nbsp;literária, me faz afirmar que essas assinaturas que&nbsp;elaboro são um trabalho de violência teatral. Contra&nbsp;essa representação colonial (estética europeia) de&nbsp;homem branco no centro do poder da criação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao fazer referência a existências de outras <em>criaturas</em>, estou violentando o sistema de representação&nbsp;que me inventa como um elemento dominado&nbsp;dessa criação. Eu escrevo como se levantasse a&nbsp;mão “contra o detentor abusivo do <em>logos</em>”, para&nbsp;citar Derrida. E lendo esse <em>logos</em> de modo mais&nbsp;complexo com Leda Maria Martins nesta citação&nbsp;de <em>Performances do tempo espiralar</em> (p.87):</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Como um logos em movimento do ancestral&nbsp;ao performer e deste ao ancestre e ao <em>infans</em>, cada&nbsp;performance ritual recria, restitui e revisa um&nbsp;círculo fenomenológico no qual pulsa, na mesma contemporaneidade, a ação de um pretérito&nbsp;contínuo, sincronizada em uma temporalidade&nbsp;presente que atrai para si o passado e o futuro e&nbsp;neles também se esparge, abolindo não o tempo,&nbsp;mas a sua concepção linear e consecutiva. Assim,&nbsp;a ideia de sucessividade temporal é obliterada pela&nbsp;reativação e atualização da ação, similar e diversa,&nbsp;já realizada tanto no antes quanto no depois do&nbsp;instante que a restitui, em evento.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">E voltando a Derrida, “não se trata portanto de&nbsp;construir uma cena muda, mas uma cena cujo clamor ainda não se apaziguou na palavra”. E a partir&nbsp;dessas citações trago a questão: Se o clamor ainda&nbsp;não se apaziguou na palavra, quer dizer, eu escrevo&nbsp;literatura e em língua portuguesa, mas como posso&nbsp;nesse movimento que traz o incômodo opressivo&nbsp;da dominação do <em>senhor</em>, como posso subverter&nbsp;esse logos? E a ação que realizo para isso, o gesto&nbsp;de escapar que realizo é: O jogo das assinaturas:&nbsp;como reviravolta decolonial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jogar é fazer circular o lugar de poder. Nesse&nbsp;contexto, o lugar de poder da nomeação. E reviravolta é aquela ação do teatro apontada por Aristóteles na <em>Poética</em>, quando uma revelação que seria&nbsp;uma boa saída para revelar o enredo de um drama&nbsp;torna-se o drama em si, intensificando a tragédia.&nbsp;A tragédia nessa cena (da vida de uma escritora&nbsp;afro-americana) é a colonização. Esse é o “palco da&nbsp;crueldade” (Derrida). Assim o jogo das assinaturas&nbsp;como reviravolta decolonial é uma armadilha no&nbsp;próprio jogo das palavras, pois não necessariamente&nbsp;se consegue sair apenas dessa representação signa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas essa minha argumentação em desfavor dessa&nbsp;minha ação é por demais dramática. Visto as mulheres&nbsp;indígenas-afro-americanas que por aqui existiram e&nbsp;que jogaram com suas assinaturas como lugares de deus,&nbsp;como lugares de marcação histórica de poder. Como é&nbsp;exemplo Francisca Poderosa,<strong>[nota2]</strong>&nbsp;nascida no Brasil antes&nbsp;de 1720 na Vila de Itu, então capitania de São Paulo e&nbsp;Minas do Ouro, filha do português Pascoal Homem e&nbsp;da indígena Moxia Carijó. Francisca Poderosa faleceu&nbsp;em 1743 nas Minas Gerais e deixou testamento no&nbsp;qual pediu que registrassem esse seu nome: Francisca&nbsp;Poderosa – que havia sido um nome criado por ela.&nbsp;De nascimento, registrou o nome Anastácia e havia&nbsp;uma terceira assinatura, Francisca Pedrosa, utilizada&nbsp;em visitas episcopais em Pitangui (Minas Gerais).&nbsp;São vários os documentos (testamentos, processos&nbsp;criminais, cartas de alforria) que atestam que alterar&nbsp;o nome na colônia escravista era uma prática dessas&nbsp;mulheres. Quer dizer, um jogo das assinaturas: como&nbsp;reviravolta decolonial, que pode não ter encerrado&nbsp;em si o sistema colonial, mas riscou suas estruturas&nbsp;deixando marcas na nossa história. Como fez a africana&nbsp;batizada no Brasil Colônia como Joanna Machada e&nbsp;que, ao conquistar sua liberdade, já era nominada, na&nbsp;comunidade que circulava, como Joanna Mina, sobrenome que possivelmente fazia referência ao seu lugar&nbsp;de origem, a Costa da Mina, no continente africano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O jogo das assinaturas é uma reviravolta decolonial, que abre uma tradição que não é apenas a&nbsp;da pessoa do homem branco. Mas uma posição&nbsp;marcadora de uma cultura afro-indígena de resistência nas Américas, como nos ensinam esses&nbsp;registros de nomeação deixados por essas mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa cena, escrever em diálogo com histórias&nbsp;de crueldade pode ser uma atitude de coragem,&nbsp;pois oxigena a dor, mas não deixa de ser um flerte&nbsp;com o perigo, pois asfixia. O certo desse jogo é a&nbsp;conquista do equilíbrio a partir da criação do movimento como a conquista de um mundo possível.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>NOTAS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>[nota1]</strong>&nbsp;A palavra <em>colonial</em> aparece nesse ensaio em referência ao período inscrito na história moderna&nbsp;como as “grandes navegações”, que foi a expan-&nbsp;são e consolidação do poder colonial europeu sobre os continentes africano e americano, que teve&nbsp;como uma das bases de sustentação o escravismo&nbsp;como sistema econômico. Grafo a palavra <em>contra-colonial</em> com hífen para intensificar a posição de&nbsp;um movimento de linguagem (o de criar nomes)&nbsp;como uma reação ao sistema colonial. Já o termo&nbsp;<em>decolonial</em> diz respeito à linha de pensamento teórico&nbsp;ligada principalmente a intelectuais latino-americanes que se posicionam contra as colonialidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>[nota2]</strong>&nbsp;Informações da pesquisa de documentação histórica que realizei para a criação da dramaturgia <em>Joanna&nbsp;Mina</em>, texto que é resultado do Edital Dramaturgias&nbsp;em Processo do Teatro da Universidade de São Paulo&nbsp;(TUSP) e que foi recentemente publicado em livro&nbsp;impresso pelo selo editorial paraLeLo13S. Uma das&nbsp;fontes dessa pesquisa foram, por exemplo, os ensaios&nbsp;do livro <em>Mulheres negras no Brasil</em> <em>escravista e do pós emancipação</em>, organizado por Giovana Xavier, Juliana Barreto&nbsp;Farias e Flávio Gomes (São Paulo: Selo Negro, 2012).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">• Aristóteles, <em>Poética</em>. São Paulo: Ars Poética, 1992.&nbsp;Tradução de Eudoro de Souza.<br>• bell hooks, <em>Ensinando a transgredir: A educação como&nbsp;prática de liberdade</em>. São Paulo: Editora WMF Martins&nbsp;Fontes, 2017 (2a ed.). Tradução de Marcelo Brandão&nbsp;Cipolla.<br>• Gloria Anzaldúa, <em>Falando em línguas: Uma carta para&nbsp;mulheres escritoras do terceiro mundo</em>. Em: Revista Estudos&nbsp;Feministas, v. 8 (2000), n. 1, p. 229-236. Tradução&nbsp;de Édna de Marco. Disponível em: <a href="https://www.pernambucorevista.com.br/acervo/periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/9880/9106">periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/9880/9106index.php/ref/article/view/9880/9106</a><br>• Jacques Derrida, <em>O Teatro da crueldade e o fechamento&nbsp;da representação</em>. Em: _____, <em>A escritura e a diferença</em>.&nbsp;Tradução de Maria Beatriz Marques Nizza da Silva.&nbsp;São Paulo: Perspectiva, 2009 (4a ed.).<br>• Leda Maria Martins, <em>A cena em sombras</em>. São Paulo:&nbsp;Perspectiva, 1995 (1a ed.).<br>• Leda Maria Martins, <em>Performances do tempo espiralar</em>.&nbsp;Em: G. Ravetti, M. Arbex (orgs.), Performance, exílio,&nbsp;fronteiras: Errâncias territoriais e textuais. Belo Horizonte:&nbsp;Ed. UFMG. 2002.<br>• Ruth Ducaso, <em>Contos ordinários de melancolia</em>. Salvador:&nbsp;paraLeLo13S, 2017.<br>• Ruth Ducaso, <em>Florim</em>. Salvador: paraLeLo13S, 2020.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph">Esta carta foi redigida pela autora em outubro de 2023 e está disponível no site da&nbsp;<a href="https://www.pernambucorevista.com.br/">Revista Pernambuco.</a></p>
<p>O post <a href="https://lucianyaparecida.com.br/2025/10/06/criar-nomes-performance-contra-colonial/">Criar nomes, performance contra-colonial</a> apareceu primeiro em <a href="https://lucianyaparecida.com.br">Luciany Aparecida</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://lucianyaparecida.com.br/2025/10/06/criar-nomes-performance-contra-colonial/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
